Fonte: Jornal O Povo
25.10.10
O Congresso Brasileiro de Psiquiatria Cultural, amanhã, na aldeia indígena Pitaguary, em Maracanaú, nos convida a refletir sobre um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta: o aumento exponencial dos transtornos mentais e o consumo de drogas lícitas e ilícitas que martiriza milhões de famílias. Atualmente, o suicídio também é uma das maneiras frequentes de lidar com a dor existencial e nas aldeias indígenas está virando uma epidemia.
O que está acontecendo? Por que a depressão é a quarta doença mais significativa no mundo? Podendo vir a ser a segunda em 2030, segundo previsão da Organização Mundial da Saúde. O que está afastando o ser humano da harmonia, da serenidade, da paz interior e social?
Carecemos ainda de visão de justiça estrutural compatível com uma boa qualidade de vida em abundância para todos. Aí está a grande contribuição que a cultura indígena traz para o mundo hoje, como expressam os Lakota Sioux: “Mitakuye Oyasin” (somos todos parentes), ou seja, estamos todos interligados. Na língua Tupi a expressão equivale a “Îandé Memé Maranongara”.
Essa perspectiva nos vincula como irmãos e irmãs a um mesmo Pai -Deus da vida, do amor, da ternura, da paz, da justiça social. Deus - Mãe, que sonha conosco um mundo que possibilita a felicidade. Mas que Deus é esse? Um Deus que não se ocupa com nossas limitações, mas que fica feliz quando alcançamos a felicidade, quando nos conectamos à natureza, ao bom, ao belo, ao verdadeiro...
A psiquiatria moderna não pode curar de verdade se não integra no processo terapêutico esta dimensão imprescindível, pois somos seres “bio-psico-sócio-espirituais”. O remédio farmacológico é muito eficaz, mas, às vezes, não é suficiente.
A transculturalidade na saúde mental é um elemento que pode ajudar o psiquiatra a entender que é preciso ir além das certezas, das definições inabaláveis. Por exemplo, a física quântica hoje sacode os guardiões das verdades obsoletas e anacrônicas. Esta é uma época ousada, fora dos padrões da cultura dominante, de um retorno ao essencial.
Rino Bonvini

