Padre Rino Bonvini é médico psiquiatra e missionário Comboniano
A pedofilia é uma doença psiquiátrica definida como uma “preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes” . Esta preferência seria exclusiva e compulsiva. Uma realidade particularmente dolorosa quando envolve pessoas consideradas de confiança como padres e professores.
Uma outra questão muito séria é por que a Igreja Católica teve e tem tanta dificuldade e resistência em confessar a presença deste distúrbio entre seus representantes? O que está em jogo nesta tentativa de esconder algo tão grave? Por que este silêncio?
Um provável motivo é que admitir abala uma das concepções que sustenta um tipo de Igreja convencida de ser divina demais. Na prática, existem dois conceitos diferentes de sacerdócio. Uma concepção de serviço à comunidade. E, outro lado, a concepção sacramental-ontológica, que o considera possuidor exclusivo de um dom concedido por Deus. O sacerdote seria um escolhido, portanto, diferente, melhor...
Como justificar que esta vocação especial revele-se profundamente humana e, portanto, limitada com a presença de uma doença tão grave e devastante? Melhor negar. Esconder. Porém, o escândalo da pedofilia é uma oportunidade para repensar uma nova maneira de ser Igreja, menos preocupada com os privilégios e as aparências e mais encarnada no serviço aos mais pobres e excluídos. Uma Igreja mais aberta para acolher as próprias limitações e imperfeições. Menos silenciosa.
Esse ar de renovação existe em muitos que fazem a Igreja hoje. Carlo Maria Martini, cardeal emérito de Milão, na Itália, por exemplo, o segundo mais votado para Papa, no último consistório afirma: “A Igreja deve ter a coragem de se reformar e de aceitar as mudanças do mundo contemporâneo”. Evidência igualmente contida no próprio ensinamento de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Este é o caminho que os mártires escolheram ao serviço da paz e da justiça, enfrentando a violência dos poderosos.
Artigo publicado no jornal O Povo, dia 14.05.10
