26.10.10
É notória a complexidade do ser humano e isso também envolve a doença psiquiátrica. Por muito tempo tentamos descobrir as bases orgânicas das doenças mentais, queríamos de toda forma encontrar o agente único causador das doenças do cérebro.
Abrimos as cabeças dos loucos que morriam tentando encontrar pistas, porém foi encontrado muito pouco e ficamos desolados. Mas, se a doença mental for analisada em toda sua dimensão, ela é mais fruto do social do que de questões orgânicas.
O Congresso Brasileiro de Psiquiatria Cultural, realizado nesta terça-feira, em Maracanaú, na aldeia Pitaguary, mostra uma terapia social reconhecendo os recursos socioculturais do paciente, entre eles suas crenças e a maneira com que as utiliza no momento de suas crises.
O resgate dos vínculos perdidos pelo paciente é trabalhado juntamente com a reorganização de sua atividade religiosa, complementando a proposta psicoterapêutica.
Hoje, a cada dez causas principais de incapacidade do homem, cinco são doenças mentais. Portanto, é preciso que o trabalhador em saúde mental considere, no mundo globalizado, as causas psicossociais, além do estigma e da discriminação sobre o doente mental. Há ainda a necessidade de uma postura ética que faça frente a interesses econômicos visando lucros ou vantagens em detrimento da saúde do paciente. A pobreza aumenta para grande parte da população na terra devido a políticas econômicas internacionais e nacionais injustas.
O novo papel da Psiquiatria nesse mundo globalizado é então harmonizar a educação de novos psiquiatras e trabalhadores de saúde mental com dados sobre aspectos psicossociais envolvendo a doença mental. É imprescindível respeitar aspectos socioculturais do paciente, que possam complementar as ações terapêuticas, promover a tolerância frente às diferenças étnicas, religiosas, de poder aquisitivo e de gênero, cada vez mais comum no mundo globalizado.
MARCOS DE NORONHA
Psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural

